Conferência com Natália Moraes (EPE e ABRAPS)

Neste diálogo, a convidada, Natália Moraes (EPE e ABRAPS) apresenta seu ponto de vista sobre temas como mudanças paradigmáticas no setor de energia, coordenação e implementação de mudanças no setor, reflexões sobre a dificuldade de se conceber um ponto ótimo na hibridização da mobilidade, entre outros. Foi um conversa particularmente enriquecedora, cuja leitura eu recomendo.

O QUE PENSA O ESPECIALISTA

André Fortes Chaves

6/30/20264 min ler

Natália Moraes (*) é formada em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e é Mestre em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ. Trabalha na Empresa de Pesquisa Energética (EPE) onde desenvolve estudos nos temas de cidades inteligentes e sustentáveis que subsidiam o Ministério de Minas e Energia. É diretora voluntária da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável - ABRAPS, onde coordena projetos de ESG e sustentabilidade.

Natália, mais uma vez, obrigado pela contribuição para esta série que busca reverberar a voz e expertise de especialistas em temas como a transição energética. Tenho certeza que a conversa será muito proveitosa. Sigamos para as perguntas.

Sua trajetória combina economia, planejamento energético, sustentabilidade e mobilidade. Qual foi a principal mudança de mentalidade que o setor de energia precisou fazer nos últimos anos?

O setor de energia tem caminhado para uma crescente descentralização. Isso significa na prática, mais atores produzindo e vendendo energia e mais fontes de energia disputando o mercado. Ter diversidade na matriz energética confere maior segurança e capacidade de adaptação às dinâmicas nacional e internacionais do mercado. Por outro lado, esta tendência requer dos antigos e novos players a capacidade de fazer parcerias, encontrar nichos específicos de atuação e inovar, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas também nos novos formatos de modelos de negócio.

Quando falamos em transição energética no Brasil, qual é o maior risco: falta de tecnologia, falta de coordenação ou falta de visão de longo prazo?

Temos muita tecnologia avançada em diversos segmentos que não é implementada de forma efetiva ou adequada, não gerando os resultados esperados. Para que a transição energética aconteça de forma justa e sustentável é preciso um match muito bem calibrado entre necessidades da demanda e características da tecnologia, tais como custo, operação, flexibilidade, interoperabilidade, ciclo de vida etc. Os interesses comerciais não devem prevalecer sobre as reais necessidades a que determinada tecnologia veio suprir.

Como transformar sustentabilidade de um discurso aspiracional em uma agenda concreta de planejamento, investimento e entrega?

Sabemos que a sustentabilidade passou a ser um requisito, um caminho necessário a ser trilhado em seus diversos estágios de implementação. Em muitas empresas, este processo não ocorre de um dia para o outro, pois requer uma análise de risco e oportunidades do mercado que nem sempre é trivial. Para que sustentabilidade vire entrega de fato, a empresa precisa compreender como gerar valor a partir de ações e estratégias sustentáveis, seja para a própria empresa, seus clientes e ou para sociedade. A redução de custos através de economia circular e aumento da eficiência energética são alguns exemplos clássicos, mas há um mundo de soluções de impactos ambientais e sociais a serem explorados.

A mobilidade sustentável costuma ser tratada como tema de transporte, mas ela também envolve energia, uso do solo, inclusão e produtividade urbana. Onde está o maior gargalo dessa integração?

O maior gargalo a partir da minha experiência profissional, vem em conhecer o território e suas especificidades e, a partir deste ponto, ser capaz de desenvolver as melhores estratégias. Cada cidades do Brasil por exemplo, tem características de comércio, indústria e áreas residenciais e de lazer muito distintas. A renda média, o motivo dos deslocamentos ou sua distância média importam na escolha da estratégia de mobilidade urbana. Coletar dados e gerar conhecimento a partir destes dados é a base para decisões mais assertivas.

Na sua visão, quais indicadores deveriam ganhar mais peso para avaliarmos se uma cidade está realmente avançando em mobilidade sustentável?

Precisamos escutar os clientes, ou seja, a população. Uma mobilidade sustentável deve prover acesso à empregos, saúde, lazer, educação principalmente às populações mais carentes, gerando ao mesmo tempo, menor impacto ambiental possível.

No contexto brasileiro, a convivência entre diferentes rotas tecnológicas e vetores energéticos (eletrificação, biocombustíveis, biometano, hidrogênio e outras soluções) parece inevitável. Essa hibridização será uma realidade veicular e de infraestrutura? Qual seria o ponto ótimo desta “interoperabilidade” para evitar ineficiências econômicas, investimentos redundantes e perda de coordenação, bem como para equalizar os plenos potenciais?

Trabalho com planejamento energético há mais de 20 anos e acredito que planejar no médio e longo prazo é fundamental. O planejamento energético nos proporciona uma visão das complexas interações entre as fontes energéticas e tecnologias em diferentes estágios de maturidade, além dos cenários possíveis. Neste contexto, também deve-se analisar o impacto das cadeias de suprimento em termos de desenvolvimento econômico, impactos ambientais, geração de emprego e segurança energética. Obviamente esta é uma pergunta muito difícil de se responder, mas eu diria que no ponto ótimo desta interoperabilidade cada tecnologia deveria ser empregada no nicho em que ela entrega os melhores resultados ou o melhor custo-benefício para a sociedade.

O debate de ESG amadureceu ou ficou mais vulnerável a simplificações? O que diferencia uma agenda ESG robusta de uma agenda apenas reputacional?

Apesar das turbulências geopolíticas, o mercado ESG está mais maduro em vários aspectos. Há mais discussão qualificada a respeito e muitos casos de greenwashing vão parar nos noticiários. Uma agenda robusta tem a liderança da empresa envolvida e uma governança ativa que gera resultados reais, com evidências e transparência para população.

(*) As perguntas aqui propostas são direcionadas à especialistas, de forma que as respectivas respostas não necessariamente representam um posicionamento das instituições as quais a convidada representa.
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