Conferência com Josbertini Clementino (Sócio-diretor da Sinergia e Diretor da ABRIG-CE)
Neste diálogo Josbertini Clementino, que atuou durante muitos anos no setor público, compartilha sua visão sobre relações institucionais e governamentais, contemplando temas como plataformas digitais, dinamização, regulamentação da prática, inteligência artificial, capacitação, entre outros. O especialista, agora no setor privado, tem assessorado empresas na interlocução qualificada com tomadores de decisões públicas. Confira a íntegra.
O QUE PENSA O ESPECIALISTA
André Fortes Chaves
6/26/20266 min ler


Josbertini Clementino é graduado em Administração Pública e de Empresas, Mestre em Planejamento e Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará e Doutorando em Ciência Política pelo ISCSP/Universidade de Lisboa. Foi Secretário do Trabalho e Desenvolvimento Social do Estado do Ceará, Diretor do Ministério do Trabalho e Emprego, Chefe de Gabinete de Liderança da Câmara dos Deputados em Brasília e Secretário do Município de Maracanaú. Atualmente é Sócio-Diretor da Sinergia Consultoria e Projetos, Diretor Regional da ABRIG-CE e atua como Consultor Sênior em Relações Institucionais e Governamentais & Políticas Públicas para Banco Mundial, UNESCO, PNUD, SEBRAE, empresas, associações setoriais, fundações, sindicatos patronais e institutos.
Sua trajetória perpassa por diversas experiências no âmbito do setor público. Ao longo de sua jornada, como você observou o impacto da emergência de plataformas digitais em pautas públicas? Há uma percepção de maior dinamismo?
Sem dúvida. As plataformas digitais alteraram profundamente a velocidade com que temas entram, ganham relevância e pressionam a agenda pública. Se antes a construção de uma pauta dependia quase exclusivamente de atores institucionais organizados, hoje um tema pode ganhar dimensão nacional em poucas horas. Com certeza trouxe mais dinamismo, porém também mais volatilidade.
Ao mesmo tempo em que ampliou a participação social e democratizou o acesso ao debate público, a transformação digital também aumentou o desafio de separar mobilizações legítimas de movimentos impulsionados por desinformação ou por interesses pouco transparentes. O desafio atual dos formuladores de políticas é equilibrar capacidade de escuta com discernimento estratégico.
Quais foram as principais razões motivadoras para que mudasse de lado do balcão, do setor público para o privado? Quais têm sido seus principais desafios?
Minha trajetória sempre esteve relacionada à construção de soluções para problemas públicos. A mudança para o setor privado não significou abandonar essa lógica, mas ampliar as possibilidades de atuação.
Percebi que muitas organizações possuíam excelentes projetos, produtos e iniciativas, mas enfrentavam dificuldades para compreender o ambiente institucional e dialogar de forma estruturada com seus stakeholders. Vi aí uma oportunidade de contribuir.
O principal desafio foi compreender que os tempos, incentivos e métricas são diferentes. No setor público, muitas vezes o foco está na manutenção do poder e legitimidade perante a sociedade. No setor privado, além desses elementos, existe uma pressão permanente por resultados, competitividade e sustentabilidade econômica. Aprender a traduzir essas linguagens foi uma das competências mais importantes que desenvolvi.
Quando falamos em relações institucionais e governamentais, estamos abordando a interface e diálogo entre interesses públicos e privados. Como avalia a relevância da prática num contexto democrático?
Vejo as Relações Institucionais e Governamentais como uma atividade essencial para o fortalecimento da democracia. Sociedades democráticas são, por natureza, plurais. Diferentes setores possuem visões, necessidades e interesses legítimos que precisam ser apresentados aos tomadores de decisão. O papel do profissional de RIG é justamente qualificar esse diálogo, trazendo informações, evidências, dados e perspectivas que contribuam para decisões públicas mais equilibradas.
O problema não está na representação de interesses. O problema está na representação de interesses sem transparência. Quando exercida de forma ética e responsável, a atividade amplia a qualidade da decisão pública.
O que entende que pode ser feito para qualificar os debates atinentes a políticas públicas e aprimorar a escuta ativa dos formuladores quanto a propostas e pontos de vista dos representantes de interesses legítimos?
Acredito que precisamos fortalecer três pilares: evidências, transparência e capacidade de diálogo. Ainda existe um excesso de opiniões e uma escassez de dados em muitos debates públicos. Políticas públicas devem ser construídas com base em evidências e não apenas em percepções.
Também é fundamental ampliar mecanismos de participação estruturada, permitindo que diferentes segmentos sejam ouvidos de forma organizada e transparente. Por fim, é necessário desenvolver uma cultura de escuta ativa, tanto por parte do setor público quanto dos representantes de interesses, abandonando a lógica do pleito e adotando a lógica da construção de valor público.
Há vários anos discute-se a regulamentação da prática de relações institucionais e governamentais. Quais os custos de oportunidade decorrentes do fato de não termos uma regulamentação?
O principal custo é a insegurança institucional. Sem regras claras, a atividade continua sendo confundida, por parte da sociedade, com práticas que não representam sua essência. Isso dificulta a construção de confiança e gera assimetrias entre aqueles que atuam de forma profissional e transparente e aqueles que operam em zonas cinzentas.
No contexto digital, esse desafio se torna ainda maior. Hoje, influenciadores, plataformas, movimentos organizados e novos atores exercem forte capacidade de influência sobre decisões públicas. A ausência de um marco regulatório moderno dificulta a definição de parâmetros mínimos de transparência para todos os atores que buscam influenciar o processo decisório.
Na sua visão, quais seriam bons indicadores e importantes pontos de atenção na evolução legislativa do tema?
O primeiro ponto é garantir transparência sem criar barreiras excessivas à participação democrática. Um bom modelo regulatório deve permitir que a sociedade saiba quem representa quais interesses e perante quais instâncias atua, sem burocratizar excessivamente o processo.
Outro aspecto importante é reconhecer que o ecossistema de influência mudou. Não faz sentido construir uma regulamentação focada apenas nas relações entre empresas e governo sem considerar a atuação crescente de plataformas digitais, organizações da sociedade civil, influenciadores, imprensa e movimentos organizados.
A legislação precisa olhar para o futuro, e não apenas para a realidade que existia quando o debate começou.
Na sua visão, com o advento de tecnologias digitais, como a inteligência artificial, quais as principais transformações esperadas para esta área?
A inteligência artificial transformará profundamente a forma como coletamos, organizamos e analisamos informações. Atividades relacionadas ao monitoramento legislativo, análise documental, identificação de tendências e construção de cenários serão cada vez mais automatizadas.
Isso não diminui a relevância do profissional de RIG, pelo contrário! Quanto mais abundante for a informação, mais valiosa se torna a capacidade humana de interpretar contextos, construir confiança, desenvolver relacionamentos e compreender nuances políticas. A inteligência artificial amplia a inteligência analítica. Mas a inteligência relacional continua sendo um território essencialmente humano.
Em vista do cenário nacional e internacional, quais boas práticas você aconselharia a um RIG em início de carreira?
Primeiro, estude profundamente as políticas públicas, o processo decisório e o poder, compreendendo a sua conquista e manutenção. Para mim, uma das formas mais fascinantes de compreender a dinâmica do poder ao longo do tempo é a partir da perspectiva tridimensional do professor português Adriano Moreira, que se estrutura em três componentes: forma do poder (como se exerce), sede do poder (onde se decide) e ideologia do poder (as ideias e legitimações). É mister também compreender que qualquer tentativa de influência sem uma sólida compreensão institucional gera pura superficialidade.
Segundo, construa reputação antes de construir networking. Costumo dizer que influência não se mede pelo tamanho da agenda de contatos, mas pela quantidade de portas que permanecem abertas quando surge um tema difícil. Terceiro, desenvolva capacidade analítica. Bons profissionais não apenas acompanham fatos; eles identificam tendências, antecipam riscos e enxergam oportunidades.
Por fim, pratique a escuta ativa. Muitas vezes aprendemos mais ouvindo uma reunião do que falando em dez.
Como você avalia as opções para capacitação nesta área que não requer uma formação específica?
Vejo isso como uma oportunidade e um desafio. A riqueza do campo de RIG está justamente em sua multidisciplinaridade. Encontramos profissionais oriundos do Direito, Ciência Política, Administração, Economia, Engenharia, Comunicação, Relações Internacionais e diversas outras áreas.
Por outro lado, isso exige um compromisso permanente com a formação continuada. Nenhum curso isolado é capaz de formar um profissional completo de RIG. É necessário combinar conhecimento técnico, compreensão política, visão estratégica, habilidades relacionais e capacidade de análise de cenários.
Mais do que uma formação específica, o que diferencia os melhores profissionais é a capacidade de aprender continuamente.
Ao liderar ou coordenar projetos complexos, com múltiplos atores e interesses, qual competência mais separa uma boa ideia de uma entrega efetiva?
Sem dúvida, a capacidade de construir convergência. Boas ideias são relativamente abundantes. O que é raro é conseguir alinhar interesses distintos em torno de um objetivo comum. Ao longo da minha trajetória, percebi que projetos complexos fracassam menos por falta de qualidade técnica e mais por ausência de articulação, governança e coordenação entre os atores envolvidos.
Liderar projetos complexos exige combinar visão estratégica, capacidade de negociação, gestão de expectativas e construção de confiança. No fim das contas, resultados sustentáveis são quase sempre construções coletivas.

